|  | Já usou a sua caneta hoje? É quase certo que sim. Quer tenha apontado encontros na agenda, deixado a lista de compras no frigorífico, registado informações ao telefone, tomado notas numa aula, assinado um cheque ou simplesmente rabiscado o canto de uma folha numa reunião, a caneta é um elemento fundamental da nossa vida diária. Saca-se do bolso, tira-se a tampa e ora aí está no papel um traço firme, consistente e aparentemente interminável de tinta azul, preta, vermelha ou verde. Quem dera às crianças dos anos 50 terem podido usufruir deste prodígio! O tique-taque do relógio de parede marcava 60 segundos para o fim do exame, só faltava acabar aquele parágrafo para responder à última pergunta, está quase, vá lá, só mais uma palavra - ah, safa!, acabou-se a tinta -, toca a mergulhar desesperadamente a pena no tinteiro, pronto, anda, escreve mais depres... e lá se esborratava a folha toda perante o olhar impiedoso do professor. É PENA QUE NÃO ESCREVE MAIS DEPRESSA Em 1930, em Budapeste, na Hungria, László Bíró deparava todos os dias com um problema semelhante como editor do jornal Elôtte. As canetas de tinta permanente tinham tendência a manchar o papel, rasgar páginas e raramente produziam um traço regular mesmo quando bem manuseadas. Bíró reparou que a tinta dos grandes cilindros rotativos da sala de impressão era aplicada uniformemente e não tardava a secar. Que tal reproduzir o sistema à escala muito mais pequena de uma caneta? Seria uma espécie de minúsculo roll-on de tinta. De início, não funcionou nada bem. A tinta de jornal não era adequada, e mesmo outras variantes da substância ora se revelavam demasiado espessas ora demasiado líquidas, um obstáculo com que aliás já outros inventores se tinham debatido desde 1888 quando lhes ocorreu a mesma ideia de Bíró. Mas o engenhoso húngaro estava decidido a descortinar uma solução. MANCHA NEGRA O problema da tinta acompanhou a escrita em papel logo desde os seus primórdios. No ano 953, o califa Al-Muizz solicitou a construção de um instrumento portátil com um receptáculo interno de tinta para escrever sem nunca manchar o utilizador ou o papel. 600 anos depois, o inventor alemão Daniel Schwenter propôs um conceito de duas penas, uma enfiada na outra, a segunda das quais com uma rolha para armazenar tinta e transmiti-la à primeira. A ideia ficou-se, no entanto, pelo papel. Assim, só em meados do século XIX é que as canetas se puderam verdadeiramente chamar de "tinta permanente", em especial com os avanços técnicos promovidos por Lewis Edson Waterman e, mais tarde, Walter Sheaffer e George Parker. Eram instrumentos de enorme classe, prestígio e, por conseguinte, preço, mas a próxima revolução levaria a caneta ao mercado mundial de massas. RISCOS E RABISCOS Com a ajuda do irmão, especialista em química, László Bíró continuou a aperfeiçoar o seu protótipo de caneta com ponta esférica de metal. Daí o nome "esferográfica" para este utensílio, que, depois de lançado numa versão plenamente funcional a partir do fim da II Grande Guerra, se propagou rapidamente pelo mundo. Hoje, estima-se que haja quinze esferográficas por escritório em todo o planeta, uma das quais está provavelmente ao alcance da sua mão. Então pegue nela e aprecie-a; tem diante de si quase 10 séculos de evolução. E com prática e exercício, pode vir a fazer estas autênticas maravilhas. Sobretudo enquanto estiver à espera ao telefone.
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